ALMANDRADE: Três poemas do Mínimo Visual
Prof. Dr. Jayro Luna
Comento aqui três poemas visuais de Almandrade, poeta visual brasileiro que vem se destacando pela sua produção de qualidade teórica e estética no âmbito da poesia de vanguarda.
O nome do poeta já conota toda uma estratégia poética. Antônio Luiz M. Andrade, cujas iniciais formam A.L.M.A., daí o compósito “Almandrade”. Mas esse é o país dos “andrades”: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade... Destaco que “Almandrade” lembra também o proparoxítono “Sousândrade”. Assim temos uma reunião de nomes de poetas marcados pela irreverência, pela ousadia e, principalmente, pela radicalidade da invenção.
Num verbete do site “Expoart” li acerca de uma estratégia minimalista nos poemas que aqui comento. De fato, é possível perceber uma economia de meios nos poemas que apontam para um processo centrípeto de síntese que une significado e significante no código verbal de tal forma que os aspectos visuais do grafema se destacam como elemento significativo semântico e estético do poema.
O primeiro poema que comento é “HomeMulher”. O poema se forma da justaposição do “M” final de “Homem” com o “M” inicial de “Mulher”. O “M” é destacado no tamanho e na forma, constituindo-se duma linha fina que ocupa todo o espaço central do poema. De um lado fica o semema “Home” - significando casa, do inglês - do outro “ulher” que pode ser dividido em “ul / her”, parte de terminação sufixal do inglês (beautiful, wonderful, spoonful) e pronome. Os sememas dos extremos formam “home her”, o que confere um sutil domínio do feminino sobre o masculino, domínio que ainda se desdobra no âmbito dos grafemas/fonemas, uma vez que o “H” inicial de “Homem” não tem som nessa palavra, mas forma um dígrafo sonoro em “muLHer”, por sua vez, o “M”, grafema da união das duas palavras e que inicia a palavra “mulher” aparece duas vezes em “hoMeM” com forte significância sonora. Assim esse “homeMulher” não é apenas a união de “homem” e “mulher”, mas é também a feminilização do masculino, mais do que a “masculinização” do feminino. Lembramos aqui, do mito adâmico de caráter esotérico, gnóstico, que conferia ao ser humano primordial a condição de ser “homem” e “mulher” e que após a separação dos sexos surge a constante busca de um no outro.
O segundo poema que comento é “Seios”. Nesse poema o “i”, bem ao centro da palavra é destacado em tamanho tal que separa o espaço do poema em duas partes. De um lado “se”, de outro “os”. O “i” é o espaço entre os “seios”, estes, por sua vez, configurados pelas formas das linhas sinuosas e curvas das letras “s” e “o”. Os sememas “se” e “os” formam o início de uma frase condicional, interrompida: “se os...”. O condicional é o elemento que qualifica, por um lado, o poema. Os “seios” representam a concretização de possibilidades condicionais. Podem significar maternidade, mas por outro lado, sensualidade e desejo. O “i” cortando espaço e sendo formado por dois segmentos de reta, um menor e superior para representar o “pingo” e o outro, maior, para o corpo da letra, sugerem um zíper a ser aberto, para que se possa ver por sob a camada da palavra/roupa a coisa concreta que ela representa. Lembro que quando trabalhava de auxiliar de escritório um dos pequenos truques que fazia na máquina de calcular era digitar o número 50.135 e virando a máquina ao contrário se podia ler no mostrador a palavra “seios”, Almandrade faz aqui algo mais intenso e poético. Não inverteu a posição, mas destacou um elemento formal que estava ali na palavra, oculto, impregnado pela visão mecânica de leitura linear.
Em “Voz” - terceiro poema - o “o” é dimensionado para parecer um enorme balão ou ovo, dentro dele um balão de comics, de linhas retas (um quadrado) em que se lê/vê inscrito a letra “x” vazada. A voz assim se constrói pelos balões, é a fala representada nos quadrinhos. O “o” surge como uma janela, uma abertura dentro da significância da palavra, uma abertura para a visualidade e esta, por sua vez, materializa a representação da “voz” pelo balão. O contraste entre círculo (“o”) e quadrado do balão conota uma das mais teóricas discussões da geometria matemática e da esotérica: a curvatura do círculo. A fala “x” é o mistério, o enigma que no poema é a relação entre palavra e coisa, significante e significado, forma e conteúdo. Notemos ainda que a seqüência v/x/z sugerida na leitura do poema corresponde às três últimas letras do alfabeto português até tempos recentes quando as letras “k, w, y” foram consideradas como letras estrangeiras. O “x” que falta para dar significado à seqüência e formar uma palavra é o “o” imenso, cuja dimensão mais concretiza visualmente o sentido da palavra.
Almandrade consegue assim, economicamente, sinteticamente, revelar o que estava oculto, mas visível na palavra. Oculto porque não se via o que está lá para ser visto antes de ser lido. Num texto acerca da poesia de Wlademir Dias-Pino, Almandrade escreve algo que também bem pode se referir aos seus próprios poemas:
“A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante.”
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Almandrade nos oferece com seus poemas uma “performance da visualidade” que exige sem dúvida do leitor uma atitude de “contemplação provocante”. A economia de meios se por lado indica uma poética minimalista, doutra parte é também uma síntese complexa de elementos, seus poemas são quase como pantáculos, chaves poéticas que o iniciado deve analisar sob vários ângulos e possibilidades de estratos: fônicos, semânticos, semióticos, lingüísticos, geométricos, etc. para poder no âmbito das relações dessas possibilidades ver a dimensão e o alcance simbólico ali contido.